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O Poder Curador das Emoções Radicais

Pilotar um monomotor pode ajudar a vencer o medo? Segundo um número cada vez maior de especialistas, a resposta é sim. Essa e outras atividades que envolvem risco físico, como a canoagem em rios com corredeiras ou a escalada de penhascos, dão à pessoa a oportunidade de colocar o controle da situação - e seu destino, portanto - em suas próprias mãos. Ao defrontar-se com (e superar) os obstáculos típicos dessas práticas, o indivíduo está simultaneamente aprendendo mais sobre si mesmo, sedimentando sua autoconfiança e ganhando ferramentas de apoio para enfrentar as adversidades da vida.
"É a consciência ampliada na assunção do risco físico que o torna tão valioso", disse Michael Gass, chefe do Departamento de Cinesiologia da Universidade de New Hampshire e estudioso dos benefícios do risco físico há duas décadas, à revista Psychology Today, que publicou uma reportagem sobre o tema em sua edição de novembro/dezembro de 2006.
"O campo do estímulo limitado ajuda as pessoas a afastar as informações menos importantes." Quando o perigo surge à frente, é o instinto que toma as rédeas da situação. Nesse momento, só o presente existe, e os demais problemas - da crise no trabalho à briga com o cônjuge - perdem relevância.
"O senso de ação e a consciência se fundem", observa Gass. Além disso, o aprendizado obtido nesse tipo de experiência, diferentemente do extraído de leituras, oferece respostas imediatas e tangíveis a respeito do que a pessoa está fazendo no mundo naquele instante.
E a consciência é exigida ao extremo, como lembrou Preston Cline, presidente da empresa de consultoria de gerenciamento de risco Adventure Management, à Psychology Today: "Em situações de aventura, você deve estar consciente das escolhas que está fazendo, ou morrerá. (...) Uma vez que entenda isso, você perceberá que não é uma vítima de suas emoções, e que pode repeli-las se o desejar”.
A idéia de que emoções intensas de auto-eficácia serviriam para aumentar o esforço e a persistência em relação a uma tarefa e, conseqüentemente, alcançar um nível de desempenho mais elevado nasceu na mente de Albert Bandura, pesquisador da Universidade Harvard.
Disso deriva a percepção de que o aumento de oportunidades de demonstrar habilidade em sair-se bem de algo desafiador amplia na pessoa seu esforço nesse sentido, sua persistência e, conseqüentemente, suas realizações. Essas conquistas podem ser aplicadas facilmente em outros setores da vida.
Há um fator crucial a ser considerado nessas atividades, em termos terapêuticos: é preciso descobrir o equilíbrio entre a incerteza presente nas situações de risco físico e a capacidade individual de lidar com essa incerteza. Quando se encontra esse ponto de equilíbrio e se habitua com a impermanência característica da vida, os benefícios são imensos.
"Correr riscos é um lembrete de que nada é certo", diz Cline. "Na vida cotidiana, as pessoas freqüentemente criam essas pequenas ilusões de segurança, mas quando o véu é puxado você percebe como a vida é realmente incerta. Em vez de viver com medo de que a cortina será puxada, faz mais sentido desenvolver as habilidades necessárias para combater a incerteza."

O Quociente de Coragem
Segundo Michael Gass, o risco divide as pessoas em três tipos: os "fugitivos do risco", os "redutores do risco" e os "otimizadores do risco". As atividades recomendadas dependem inicialmente da classificação em algum desses tipos.
Se você pertence à primeira categoria, a indicação é sair de sua confortável rotina e testar exercícios como escaladas indoor e canoagem em rios não muito agitados.
Um redutor de risco pode ir um pouco além desses limites. Uma caminhada puxada em locais mais altos, mergulho submarino ou uma noite acampando sozinho num lugar deserto se encaixam nesse patamar.
Um otimizador de risco deve manter esse padrão, fazendo com que o risco físico se torne um objetivo de vida e sempre buscando renovar os seus desafios. Praticar vôo livre ou saltar de pára-quedas a partir de locais fixos são exemplos disso.

A Ajuda Virtual
A dessensibilização gradual, na qual o paciente é exposto ao objeto ou à situação que deflagra o medo, constitui a base do tratamento psicoterapêutico para vários distúrbios ligados ao medo. Embora a terapia consiga bons resultados, não se trata de uma jornada tranqüila. Muitos pacientes se sentem humilhados ou não conseguem controlar o pânico antes que a terapia comece a surtir efeito.
Uma melhora substancial nesse estado de coisas surgiu com a medicina virtual. Nos casos de acrofobia (medo de altura) e de claustrofobia (medo de espaços fechados), por exemplo, já se obtêm um bom índice de sucesso. Em vez de dirigir-se para locais que lhes tragam as sensações de medo e lá ficar por algum tempo, basta ao paciente pôr um capacete informatizado e "visitar" lugares virtuais fechados ou altos, como elevadores, topos de edifícios e viadutos sem proteção lateral. O software usado vai colocando a pessoa em situações que podem deflagrar a ansiedade de maneira cada vez mais intensa, mas oferece-lhe meios de controlá-las. Dessa forma, o sucesso é obtido num ritmo menos brusco.
O programa SpiderWorld ("Mundo das Aranhas"), criado pelos psicólogos Albert Carlin, Suzanne Weghorst e Hunter Hoffman, trabalha a fobia em relação a esses animais colocando o usuário num ambiente virtual no qual aranhas dos mais variados tipos sobem pelas paredes, correm no chão, caem do teto sem aviso e saltam, se tocadas. Como meio de controle, o paciente dispõe de uma luva informatizada, com a qual pode manipular os insetos. Numa fase seguinte, denominada "realidade mista", o paciente toca com a própria mão objetos reais correspondentes aos que vê virtualmente. Um deles era uma enorme tarântula, do tamanho de uma mão. Segundo Hoffman, uma mulher que temia esses animais recuperou se de forma tão espantosa com o tratamento que, após a alta, adquiriu o hobby de acampar.

Autor: Eduardo Araia - Grandes Reportagens Planeta

 
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